Por André Bernardo e Diego Monteiro, Revista Ave Maria

 

Passava da meia-noite do dia 17 de outubro de 1717 quando o pescador João Alves, olhando desolado para as águas do Paraíba do Sul, desabafou, em tom de brincadeira: “Será que pescaram todos os peixes do rio e se esqueceram de avisar?” Desde o dia anterior, ele, Domingos Garcia, seu pai, e Filipe Pedroso, um tio, não conseguiam pescar um dourado sequer. Mas, apesar de terem virado a noite, não se deram por vencidos: “Não podemos voltar de redes vazias”.
 

A Câmara de Guaratinguetá tinha prometido uma recompensa para quem conseguisse pescar a maior quantidade possível de peixes. A ideia era oferecer um banquete à comitiva de dom Pedro Miguel de Almeida, governador da capitania de São Vicente. A caminho de Minas Gerais, o futuro conde de Assumar passaria pelo vilarejo no dia seguinte.
 

Nas imediações do porto de Itaguaçu, João Alves resolveu tentar a sorte mais uma vez. Ao recolher a rede, encontrou uma imagem de barro decapitada. Lançou a rede novamente e “pescou” a cabeça que faltava. Os três se entreolharam: “Como é que a rede conseguiu pegar essa cabecinha tão pequena no meio do lodo no fundo do rio?” Ninguém soube responder.
 

Em sinal de respeito, João tirou a camisa, embrulhou a estatueta e a cabeça nela e continuou a pescar. Já perto do amanhecer, o inesperado aconteceu: os três pescaram uma enorme quantidade de peixes, das mais diferentes espécies: pintados, robalos, pacus, tucunarés e tantos outros. Já naquele domingo, houve quem falasse em milagre na pequena vila de Santo Antônio de Guaratinguetá.

 

Dom Pedro I e Princesa Isabel estão entre os devotos ilustres de Nossa Senhora Aparecida

Do fundo do barco, a escultura seguiu para a casa de Silvana da Rocha Alves, a mãe de João. Depois de usar cera de abelha para “colar” a cabeça da escultura, a mulher improvisou um oratório em sua casa. Lá, ela e o marido passaram a receber parentes, amigos e vizinhos para rezar o terço. Em uma noite calma e sem vento, as velas que mantinham o casebre iluminado se apagaram de repente. E, mais de repente ainda, voltaram a se acender. Sozinhas.
 

Ao milagre das velas seguiram-se outros. Um deles aconteceu em 1862. Um menino de 3 anos, durante passeio de barco, caiu nas águas do Paraíba do Sul e foi arrastado pela correnteza. Por milagre, não morreu. O outro registro é de 1874. Cega de nascença, uma menina de Jaboticabal (SP), distante 482 quilômetros de Aparecida, queria visitar a santinha. Após três longos meses de viagem, avistou, ao longe, a capelinha. “Mãe, como é linda essa igreja!”, teria dito, para alegria da mãe, Gertrude Vaz.
 

“De tanto o povo falar em aparecida daqui, aparecida dali, virou nome próprio”, explica o jornalista Ricardo Marques, autor de Nossa Senhora Aparecida – 300 anos de milagres. “Não houve um batismo. O culto surgiu de baixo para cima.”
 

De milagre em milagre, a fama de Nossa Senhora Aparecida logo se espalhou pela região. Em pouco tempo, conquistou devotos ilustres, como a princesa Isabel. Vinte anos antes da Lei Áurea, Isabel e o marido, o conde d’Eu, visitaram a santinha. Casados havia quatro anos, os dois não conseguiam ter filhos. Dezesseis anos depois, o casal regressou. E, dessa vez, levou a prole: Pedro, Luís e Antônio.
 

Milagre? Não se sabe. Pelo sim, pelo não, Isabel, agradecida, presenteou a santinha com uma coroa de ouro de 24 quilates, cravejada de diamantes. “A coroa doada pela princesa Isabel e o manto com a bandeira do Brasil não deixam dúvidas: Aparecida é um dos maiores símbolos cívico-religiosos da nação”, afirma o historiador José Leandro Peters, autor da tese Nossa Senhora Aparecida no discurso da Igreja Católica no Brasil (1854-1904).

 

Especialistas tentam explicar quem, quando e por que jogaram a imagem da santa no rio

Trezentos anos depois, jornalistas e historiadores tentam elucidar alguns dos mistérios que rondam Nossa Senhora Aparecida. Quem esculpiu a imagem? “A hipótese mais provável é que tenha sido o frei carioca Agostinho de Jesus”, explica a historiadora Tereza Galvão Pasin, autora de Senhora Aparecida – romeiros e missionários redentoristas na história da Padroeira do Brasil. “Era discípulo do mais respeitado artesão da época, o português Agostinho da Piedade.”
 

Mas por que razão a imagem fora jogada no Paraíba do Sul? Quem responde é Rodrigo Alvarez, autor de Aparecida – a biografia da santa que perdeu a cabeça, ficou negra, foi roubada, cobiçada pelos políticos e conquistou o Brasil. “Era tradição se desfazer de santo quebrado o mais rapidamente possível. Manter defunto de barro dentro de casa era certeza de maldição”, esclarece.
 

Mas as dúvidas não param por aí. De quem seria a estatueta? Para o jornalista Ricardo Marques, não restam dúvidas: a imagem é de Nossa Senhora da Conceição, a santa padroeira de Portugal. “Por essa razão, é provável que o dono da imagem fosse português”, arrisca.
 

E quanto tempo, aproximadamente, passou no fundo do rio? Segundo estimativa de Rodrigo Alvarez, “não mais do que cinco anos”. Na opinião do jornalista, a imagem pertencia à capela Nossa Senhora do Rosário, de propriedade do capitão José Correia Leite. Muito devoto, teria inaugurado a capela em 1712, cinco anos antes do resgate da santinha nas águas do rio.
 

Até hoje, três séculos depois, devotos se perguntam: o que teria enegrecido a imagem de Nossa Senhora da Conceição? O lodo do rio ou a fumaça das velas? Coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP, o sociólogo Francisco Borba Ribeiro Neto explica que, mais do que negra, a imagem é humilde. “De certa forma, o manto reforça essa humildade. E aumenta a empatia entre o povo e a imagem. Nossa Senhora Aparecida é uma humilde sofredora, como seus devotos”.
 

Por fim, a pergunta que não quer calar: se a escultura foi encontrada no dia 17 de outubro, por que a solenidade é comemorada no dia 12? Segundo o historiador Leandro Karnal, a escolha não foi aleatória. Ele cita outras datas, como o descobrimento da América (12/10/1492), a aclamação de Pedro I como imperador do Brasil (12/10/1822) e a inauguração da estátua do Cristo Redentor (12/10/1931). “A data passou a ser uma conexão cívica e religiosa, celebração do catolicismo pátrio, de identidade da fé e do nacionalismo”, observa Karnal, que acaba de lançar Santos fortes – raízes do sagrado no Brasil.

 

Curiosidades à parte, o fato é que a devoção a Aparecida nunca parou de crescer. Com o passar dos anos, o oratório doméstico virou capela, a capela cedeu lugar à igreja, a igreja foi elevada a basílica e, recentemente, a basílica se transformou no maior santuário mariano do mundo. “Aparecida conquistou o Brasil antes mesmo de existir em nosso país um hino (1822) ou uma bandeira nacional (1889). A santinha foi o primeiro símbolo realmente brasileiro e de alcance nacional”, afirma o jornalista Rodrigo Alvarez.
 

Se a capela original media 32 palmos de largura por 76 de comprimento (algo em torno de sete metros por 16), a basílica ocupa uma área de 72 mil m² e tem capacidade para 45 mil peregrinos. É no interior dela que está a principal atração do Santuário: a imagem autêntica de Nossa Senhora Aparecida, coberta com seu manto azul bordado em dourado e sua coroa de ouro. Medindo 36 centímetros e pesando 2,5 quilos, a estatueta está exposta num nicho a quatro metros de altura e protegida por um vidro à prova de balas. Exagero? Não.
 

Em 16 de maio de 1978, Rogério Marcos de Oliveira, de 19 anos, tirou proveito de uma repentina queda de luz para, durante a Missa das oito, tentar roubar a santinha. O sujeito correu até o nicho, bateu com força no vidro e, depois de quebrá-lo, pegou a imagem e fugiu em disparada. “Estão roubando Nossa Senhora!”, gritou, do altar, Padre Antônio Lino.
 

Perseguido pelos fiéis, o fujão deixou a santinha cair. Resultado: Rogério foi mandado para a prisão (e, de lá, para um sanatório) e, Aparecida, para o Museu de Arte de São Paulo (MASP). “Mais do que restaurar, tive que reconstituir a imagem. Estava totalmente destruída!”, recorda a artista plástica Maria Helena Chartuni, de 75 anos, que levou 33 dias para devolver a santinha à basílica. “Fiquei satisfeita com o resultado.”

 

Maior santuário mariano do mundo, Aparecida recebe 12 milhões de visitantes por ano

Desde 2014, uma réplica de Nossa Senhora Aparecida, batizada de imagem peregrina, percorre paróquias e dioceses de todas as capitais do Brasil e de outras cidades. É o chamado Ano Nacional Mariano, instituído pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) em 12 de outubro de 2016 como parte do Jubileu dos 300 anos. “A peregrinação foi uma manifestação pública do carinho, respeito e devoção do nosso povo pela sua padroeira. A imagem arrebanhou multidões por onde passou: praças, condomínios, fábricas, penitenciárias e até estádios de futebol”, relata o reitor do Santuário Nacional, Padre João Batista de Almeida.
 

Um pouco desses trezentos anos é contado tanto no Museu do Santuário, que fica na torre da basílica, quanto no Memorial da Devoção, ao lado do Centro de Apoio ao Romeiro. Inaugurado em 8 de setembro de 1956, o Museu Nossa Senhora Aparecida guarda relíquias valiosas, como as correntes do escravo Zacarias, que teria fugido de uma fazenda do Paraná. Ao ser recapturado no vale do Paraíba, pediu ao feitor para rezar aos pés da santa. Quando o escravo se ajoelhou, as correntes se partiram, sem explicação.

 

Também está lá a pedra com a marca das ferraduras de um cavalo. De passagem por São Paulo, um fazendeiro de Cuiabá (MT) zombou da fé dos romeiros ao dizer que, se quisesse, entraria na igreja montado a cavalo. Para espanto dos fiéis, as patas do animal ficaram presas no primeiro degrau da escada. “Naquele momento, o homem se converteu”, afirma Ricardo Marques. O acervo do museu guarda, ainda, duas Rosas de Ouro, uma das mais antigas e nobres condecorações papais. A primeira foi enviada pelo Papa Paulo VI, em 1967, e a segunda trazida por Bento XVI, em 2007.
 

“A celebração dos trezentos anos termina em 12 de outubro de 2017, mas a devoção continua”, avisa Padre João Batista. “Vamos continuar trabalhando para que as graças e as bênçãos de Deus sejam sempre abundantes para todo o Brasil!”

 

Da santinha de barro à cidade-santuário

17/10/1717 – Três pescadores, Domingos Garcia, João Alves e Filipe Pedroso, encontram uma imagem de Nossa Senhora da Conceição no fundo do rio Paraíba do Sul, no interior de São Paulo.

26/7/1745 – A primeira igreja dedicada a Aparecida é inaugurada no Brasil. A primeira Missa foi celebrada pelo Padre José Alves Vilella, pároco da igreja matriz de Guaratinguetá.

7/12/1868 – A Princesa Isabel pode ser considerada uma das mais famosas devotas de Aparecida. Em 1884, a autora da Lei Áurea presenteou a santinha com uma coroa de ouro e quarenta diamantes.

24/6/1888 – Dom Lino Deodato de Carvalho, bispo de São Paulo, inaugura a Matriz Basílica, mais conhecida como Basílica Velha. De arquitetura barroca, levou 44 anos para ficar pronta.

8/9/1904 – Nossa Senhora Aparecida é coroada a Padroeira do Brasil. A Missa, presidida pelo núncio apostólico Dom Júlio Tonti, reúne 15 mil fiéis.

7/1930 – Por sugestão do arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Sebastião Leme, Nossa Senhora Aparecida é declarada a Padroeira do Brasil pelo Papa Pio XI.

7/9/1953 – A CNBB declara o 12 de outubro como o Dia da Padroeira do Brasil. A solenidade já fora comemorada em 7 de setembro (Independência) e 8 de dezembro (Imaculada Conceição).

15/08/1967 – Por ocasião do aniversário de 250 anos do encontro da imagem, a Basílica Nova é inaugurada pelo Papa Paulo VI.

4/7/1980 – A basílica, projetada pelo arquiteto Benedito Calixto Neto, recebe a visita de João Paulo II. Bento XVI, em 11/5/2007, e Francisco, em 24/7/2013, também visitaram o Santuário.

3/10/1983 – A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) declara, oficialmente, a Basílica de Nossa Senhora Aparecida como Santuário Nacional.

 

“Se você quer saber quem é Maria, vá ao teólogo e ele lhe dirá exatamente quem é Maria. Mas se você quer saber como amar Maria, vá ao povo de Deus, que isso ele lhe ensinará melhor.” (Ela é minha mãe - Encontros de Papa Francisco com Maria, 2014, p. 26)
 

A afirmação do Papa Francisco corrobora a influência da piedade popular na evangelização do povo brasileiro e realça a mensagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2,5). É justamente nesse testamento da Virgem Maria que a devoção mariana deve ser alicerçada. Seguir Jesus Cristo vivenciando o Seu Evangelho.

 

Consonante a esse princípio, Dom Pedro Carlos Cipolini, presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Doutrina da Fé da CNBB, diz que para crescer na fé é preciso ouvir, meditar e praticar a Palavra de Deus. “Também temos que ouvir a tradição da Igreja, contida no Catecismo da Igreja Católica e na sua Doutrina Social. O conhecimento íntimo de Jesus nos faz adultos na fé e ajuda a atingir a maturidade por meio das práticas sacramentais e das obras de misericórdia corporais e espirituais”.

 

O povo não tem medo de manifestar a sua devoção filial a Nossa Senhora Aparecida, que se compadece com a dor e o sofrimento de todos os seus filhos, especialmente dos pequenos e humildes. É a Mãe dos pobres. Ela é a que se faz pequena para tornar-se grande.

 

A revista Ave Maria apresenta o testemunho e as diversas manifestações de fé e devoção a Nossa Senhora Aparecida, de brasileiros das principais capitais aos rincões do país. Como o de Teresa Florentino Balta, de Campo Grande (MS), devota de Nossa Aparecida. Com a voz embargada, transparecendo as cicatrizes que a vida lhe trouxe, ela contou como sofreu a morte de seu filho amado:

 

“Quando casei, queria muito ter filhos, mas não conseguia. Sofri um aborto no 5º mês da minha primeira gestação. Passado um tempo, nasceu o meu primeiro filho, Frank. Depois, a minha filha Aline. Era um casal. A essa altura eu não podia mais engravidar, havia feito laqueadura.

 

Em 1987, perdi o meu filho Frank, três anos de idade, num acidente de carro. Na época, perdi totalmente a vontade de viver. Acreditava que para eu estar novamente ao lado dele, precisava me matar.”

 

Teresa não aceitava a morte precoce do pequeno Frank. Sofreu durante meses, ao ponto de se deixar levar pelo desespero e pela falta de lucidez.

 

“A minha filha Aline também era pequena, tinha dois anos. Eu não me imaginava deixando ela com ninguém. Então eu pensava: ‘para eu morrer, tenho que levá-la comigo’. Era a ‘fórmula’ que tinha encontrado para juntar a minha família.”

 

Teresa ia à Igreja indignada, aos prantos.

 

“Eu queria que Nossa Senhora aparecesse e dissesse onde e como o meu filho estava, mas isso nunca aconteceu. Durante quatro meses planejei como matar a minha filha e me matar. Até que numa sexta-feira à tarde, o meu esposo não estava em casa e eu fiquei sozinha com ela. Decidi que aquele era o dia ideal. Aline tinha um sono muito leve. Estávamos na cama. Ela, deitada sobre o meu braço. Eu, esperando ela dormir.

 

Foi quando vi, no pé da cama, próxima à porta, a imagem de Nossa Senhora Aparecida, surgindo do chão, e ao seu redor uma luz intensa. Ela veio levitando e parou em cima da minha barriga. Nossa Senhora falou comigo. Explicou por que meu filho foi escolhido e pediu para que eu rezasse por ele. Enquanto ela falava, sentia uma felicidade tão grande que só agradecia.”

 

Hoje, Teresa tem 60 anos de idade e sua filha, Aline, 33. Adotou um menino, reverteu a laqueadura e deu à luz outro menino. Tem dois netos.

 

“Quando a imagem de Nossa Senhora Aparecida sumiu, eu estava acordada. Mas não consigo lembrar o que ela me disse. Eu só sei que acabou aquele desespero. Graças a Deus, hoje tenho paz. Sinto muita saudade, mas não tenho mais aquela revolta, aquela angústia. Hoje escrevo poesias. Cada vez que termino uma poesia, fico com a sensação de ter vencido algo.”

 

 

Famosos devotos da Mãe Aparecida

Nossa Senhora Aparecida reina absoluta no coração dos brasileiros que nela creem. É comum ver artistas professarem publicamente a sua fé.

 

O cantor Thiaguinho é um deles. À reportagem, ele disse que a sua devoção a Nossa Senhora vem de família: “Minhas avós eram da Legião de Maria. Meu avô era Ministro da Eucaristia e muito devoto de Nossa Senhora também. Cresci frequentando a capela de Nossa Senhora Aparecida, em Ponta Porã (MS), onde meu pai era o coordenador da paróquia e minha mãe coordenava o coral. Eu fazia parte da comunidade, a ponto de ajudar a construir a capela, que antes era de madeira. Lá, vivi os momentos mais fortes da minha fé. Tudo que sou é porque pedi, de joelhos, naquela Capela, para Nossa Senhora interceder por mim. Reforcei meus pedidos no Santuário Nacional de Aparecida, e no dia que entrei no programa de TV “Fama”, da Rede Globo, minha fitinha dos pedidos arrebentou. Tenho outros milagres em minha vida. Sou apaixonado por Maria!”

 

Outro ilustre devoto de Nossa Senhora Aparecida é Marcos Pontes, primeiro astronauta profissional sul-americano e o primeiro lusófono a orbitar o planeta (2006). Ele revelou à revista Ave Maria que seus pais eram devotos de Nossa Senhora e que cresceu num lar de fé.

 

“Minha família sempre me contou que, uma vez, minha mãe levou meu irmão mais velho (eu ainda não tinha nascido) a Aparecida para pedir pela recuperação de um problema que ele teve nos olhos. Ele foi curado”. Marcos Pontes tem uma estátua em sua homenagem exposta no Museu de Cera Nossa Senhora Aparecida.

 

Outros artistas externam sua fé e devoção à Mãe de Deus. Entre eles, a atriz Paloma Bernardi, o cantor Luan Santana, o ex-jogador Ronaldo Fenômeno, o humorista Renato Aragão e o cantor Daniel.

 

Devoção e fé por meio da arte

A história da Padroeira do Brasil foi e continua sendo retratada por diversos meios. Na televisão, a Rede Globo produziu e exibiu a telenovela “A Padroeira” (2001-2002), escrita por Walcyr Carrasco. Por e-mail, o autor falou sobre o legado da novela, e disse que a arte é um instrumento que ajuda no fortalecimento da fé religiosa de uma pessoa.

 

“A fé também ajuda a fortalecer a arte. Aliás, a fé fortalece todos os aspectos da vida. O legado da novela é imenso porque tocou intensamente o coração dos brasileiros. Inclusive, estou preparando para o próximo ano um musical sobre Nossa Senhora Aparecida, que será dirigido por Jorge Takla”. Atualmente, “A Padroeira” é exibida na TV Aparecida.

 

Também através da música se expressa a fé em Nossa Senhora. Além de ser um importante instrumento de evangelização, é perfeita para dar testemunhos. “O meu ministério é mais voltado a Nossa Senhora porque eu tenho uma afinidade e uma intimidade com ela, desde pequena. Quando componho uma canção, eu a uso para dar o meu testemunho. E, antes de cantar, eu falo o que aquela música trouxe pra mim. Você acaba deixando um testemunho de fé para as pessoas e as marca”, destacou a cantora sul-mato-grossense Syrlene Maria.

 

Outra história de fé movida pela música é o da cantora carioca Telma Tavares, que já foi aspirante a noviça e alimenta uma profunda devoção a Maria: “Outro dia estava emocionada compondo uma música dedicada a Nossa Senhora Aparecida, e essa emoção se multiplicou quando descobri que a minha madrinha estava no Santuário no mesmo instante em que eu escrevia a canção”.

 

 

“A gente evangelizava e era evangelizado”

Em 40 anos de sacerdócio, Padre Carlos Artur Annunciação, cssr, dedicou quase duas décadas ao Santuário Nacional, mantendo contato direto com os fiéis, seja por meio de confissões, Missas ou rezando a Consagração a Nossa Senhora Aparecida nos diversos programas da Rede Aparecida de Comunicação. “Era muito bom poder conversar e levar a Palavra de Deus a esse povo simples, mas cheio de fé”.

 

O missionário redentorista se recorda com emoção os momentos vividos em Aparecida.

 

“Eu via algumas senhoras, por exemplo, que traziam o dinheirinho enrolado no lenço e depositavam para Nossa Senhora. É um dinheiro que tem o suor, o sangue, o trabalho e a fé do nosso povo. A gente evangelizava e era evangelizado nesses testemunhos de vida tão bonitos. Tantas vezes eu chorei. Chorei mesmo! De emoção, ao ver essa fé tão simples, mas tão bonita e arraigada no coração daquelas pessoas com uma sabedoria de Deus impressionante! O amor de Nossa Senhora é algo maravilho! O nosso povo sabe cultivar isso com muito carinho. Por isso ama Aparecida. Ela é o centro da devoção das pessoas.”

 

A fé dos romeiros que visitam a Casa da Mãe

O Santuário de Aparecida é o centro da catolicidade da Igreja no Brasil. Todos os dias, fiéis do Brasil e do mundo, de todas as classes sociais, peregrinam à Casa da Mãe em romarias organizadas por dioceses, paróquias, congregações, movimentos, associações, novas comunidades e outros grupos religiosos e laicais.

 

Muitos guardam com sacrifício o dinheiro de um ano inteiro de trabalho pesado para poder ir a Aparecida. Chegam cansados após uma longa viagem, mas o cansaço logo é convertido em momentos de alegria e fé especial com a graça de Deus. Eles voltam renovados, felizes para continuar a caminhada. É uma experiência belíssima da misericórdia de Deus e de Maria, que os acolhe com tanto amor e carinho.

 

Isabela Miranda Gomes partilhou a importância da peregrinação, a pé, de 153 km de São Paulo ao Santuário de Aparecida, num momento em que a sua fé estava esmorecida.

 

“A peregrinação começou às 6h da manhã do dia 8 de outubro de 2016, com o grupo Família Caminhada. Não imaginava a experiência que estava prestes a viver. No primeiro dia, caminhamos cerca de 43 km. Recebemos água, frutas e pão de muitos anjos que paravam na estrada para saciar a fome e a sede dos peregrinos. Em verdade, era a fé daquelas pessoas que alimentava nossa caminhada. No segundo dia, percorreríamos 35 km. Foi aí que minhas dificuldades começaram.”

 

A essa altura Isabela estava exausta. Havia chegado ao seu limite. Foi tomada pelas dores físicas e emocionais:

 

“Não são as dores que diminuem, é o amor e a fé que crescem. A cada um que chegava ao meu lado, eu dizia: ‘reza o terço comigo!’ E como diz Jesus, ‘onde dois ou mais estiverem reunidos em Meu nome, ali também Estarei’. Com fé, consegui. Acho que foi um dos momentos de maior alegria na minha vida. Não só havia superado um desafio que tinha se mostrado, para mim, insuperável, mas o havia percorrido com muito amor. Sou filha de Nossa Senhora. Recebi graças desde o meu nascimento, quando sobrevivi a uma infecção hospitalar que levou à morte os recém-nascidos da maternidade onde nasci. Minha vida foi entregue a Nossa Senhora Aparecida e, até hoje, caminho sob sua proteção. Da tradição familiar de visitar o Santuário todos os anos, desde quando morava no interior do Paraná, nasceu um coração devoto, que à Mãe sempre recorre. Hoje eu sei que Nossa Senhora não só caminhou comigo aqueles 153 km, mas me carregou no colo, quando eu já não podia mais andar.”

 

 

A padroeira dos peões

 

Nossa Senhora Aparecida é considera padroeira dos peões. É comum nas festas de peão mundo afora vê-los manifestando a sua fé e devoção com a imagem no chapéu, na fivela do cinto e na bota.

 

Dom Milton Kenan Júnior, bispo da Diocese de Barretos (SP), cidade que há 62 anos é sede da maior festa de peões da América Latina, e uma das maiores do mundo, leva no encerramento do rodeio a imagem da Mãe Aparecida para agradecer a proteção e pedir Sua bênção.

 

Dom Milton afirmou que diante da imagem de Nossa Senhora, os pões retiram espontaneamente os seus chapéus, ajoelham-se, persignam-se e olham para o alto certos de que Ela está sempre próxima, pronta para dar Sua proteção.

 

“A devoção a Nossa Senhora acompanha os peões desde a época que as comitivas cruzavam o Rio Grande. O amor à padroeira está gravado no coração dos peões. Pode parecer algo passageiro, mas a devoção à Senhora Aparecida é que dá forças e sustenta os devotos nos caminhos deste mundo, nas travessias desta vida. É sempre uma grande emoção ver que peões e todo o povo se levantam para reverenciar Nossa Senhora. Oxalá a lembrança de Nossa Senhora permaneça sempre viva nos nossos corações. Se a temos conosco, encontramos Jesus, seu Filho, e se renova em nós a esperança.”

 

A devoção à Mãe Aparecida em números

– 107 metros é a altura da Torre Brasília, o ponto mais alto da basílica. Por R$ 3, o romeiro pode visitar o Museu da Aparecida, que fica no 18º andar, e o mirante, no terraço.

– 380 é o número de lojas do Centro de Apoio ao Romeiro. O complexo, de 36 mil m², tem 22 restaurantes e 36 quiosques. Só de banheiros são 874 – 55 adaptados para deficientes físicos.

– 392,2 metros é o comprimento da Passarela da Fé. Inaugurada em 19/12/1971, liga o Santuário Nacional à Basílica Velha. Em alguns pontos, chega a 35 metros de altura.

– 1,9 mil é o número de funcionários do Santuário. Pelo menos dez deles trabalham na Sala das Promessas, um dos pontos mais visitados da basílica.

– 18,5 mil objetos são doados por mês em retribuição às graças alcançadas. Tem desde vestido de noiva, foto de miss e caixote de engraxate até placa de carro, luva de boxe e máquina de costura.

– 45 mil pessoas é a capacidade da basílica. Em celebrações externas, o número de devotos pode chegar a 300 mil. A título de comparação: a população da cidade de Aparecida é de 36,2 mil habitantes.

– 245 mil pessoas é o recorde de público, em um único dia, do Santuário. Foi registrado em 14/11/2010. O dia 12 de outubro mais concorrido até hoje foi o de 1996: 215 mil romeiros visitaram a basílica.

– 285 mil m² é a área do estacionamento. Lá, cabem 2 mil ônibus, 3 mil carros, 600 motos, 526 bicicletas, 24 trailers e até um receptivo para cavalos.

– 1,3 milhão m² é a área total do Santuário Nacional. Desses, 142 mil m² são de área construída. Só a Basílica de Aparecida tem 72 mil m².

– 12 milhões é o número anual de visitantes do Santuário. Embora a maior parte dos peregrinos seja formada por católicos e brasileiros, há romeiros de outros países e de outras denominações religiosas.